episódio 5: PONTEVEDRA – CALDAS DE REIS

O meu dia começou por volta das 7h00. Mais uma vez fui um dos últimos a sair do albergue. Mais uma vez comecei a caminhar de noite. Até me levantei bem, levando em conta a dor nas pernas que tinha ontem (acho que foi por ter sido de longe a noite em que dormi melhor). 

Esta etapa (de cerca de 23km) começou de forma majestosa. Como o albergue onde fiquei fica na zona sul de Pontevedra, junto à estação de comboios, o caminho levou-me a atravessar toda a zona histórica de Pontevedra (com particular destaque para a Igreja de la Peregrina), que é lindíssima a toda a hora, mas que com a luz do nascer do dia e com pouca gente na rua (em silêncio quase total), ganha uma graciosidade diferente. Passada Pontevedra, finalizada por uma ponte com vieiras (símbolo do caminho) nos seus arcos, entrei por caminhos rurais, durante 3 ou 4 quilômetros, encontrando muito menos peregrinos no caminho, em relação ao dia anterior (penso que seja por em Pontevedra existir uma derivação para um novo caminho (chamado de espiritual), que liga Pontevedra a Padrón, sendo os últimos 28km feitos de barco).

Depois desses primeiros quilômetros de beleza relativa, levando em conta o que já tinha visto no caminho. Voltei a entrar por caminhos mágicos, onde o verde impera e o sol não entra. Musgo por todo o lado, riachos a atravessarem o caminho, pequenas pontes que parecem ter sido construídas por duendes, enfim um verdadeiro parque de diversões para quem gosta de caminhar pela natureza. Nisto passaram-se cerca de 10km e estava na altura da primeira paragem técnica do dia (para o tradicional menu bocadillo e coca cola). Nem sei o nome da pequena povoação, mas como era a primeira do dia, estavam lá muitos peregrinos. Na saída da tasca, comecei a caminhada ao mesmo tempo que cerca de 10 peregrinos, entre os tradicionais “buen camino” alguém foi mais longe e perguntou quase a todos de onde eram e como se chamavam, funcionou como desbloqueador e seguimos juntos o resto do caminho até Caldas de Reis.

No grupo, tipo Senhor dos Anéis, todos éramos diferentes, eu em representação de Portugal, um casal muito simpático das Filipinas (mas vive há muito no Canada), umas irmãs da Hungria, um rapaz da Polónia, duas velhinhas alemãs e mãe e filho ingleses. Foi completamente diferente. O caminho tem destas coisas, momentos em que nos pede para seguirmos sozinhos e momentos para partilhar experiências. Após ter seguido sempre sozinho, este momento de partilha soube-me muito bem. Falei sobre Portugal com todo o orgulho que me caracteriza, ouvi histórias sobre os países de cada um e sobretudo partilhámos o que estava a ser o caminho para nós. Um queria fazer uma tatuagem de uma seta amarela do camino, as irmãs começaram o caminho em Tomar, caminham há mais de 15 dias, por isso tinham muitas histórias para contar (falaram muito bem do povo português, dos mais amigáveis que já conheceram…com muito orgulho ouvi), o casal filipino, deve ter ganho rugas na cara de tanto que se riu (acho que este foi o melhor momento do caminho para eles, pois acho que não estavam a gostar muito), as velhinhas alemãs seguiam com a rigidez alemã quase sem falar, e a mãe e filho, seguiam de uma forma estranha, o rapaz tinha cerca de 15 e acho que o caminho ainda não faz bem o estilo dele. Enfim entre conversas de circunstância, normais para quem se acabou de conhecer, e outras mais profundas, criou-se uma empatia, e esta partilha conseguida, com uma paisagem vinhateira como pano de fundo, levou a que caminho passasse com uma leveza diferente, foi mais rápido e menos doloroso. Quase que fiquei espantado ao ver Caldas de Reis, tipo “já está? já chegamos?”, ao contrário dos dias anteriores, em que levei sempre com uma “marreta” antes de chegar.

Provavelmente nunca mais nos voltaremos a fazer. Mas sempre que recordamos o camino (lembrança reforçada se não o voltarem a fazer), vamos lembrar deste dia, deste grupo e desta partilha. Coisas do caminho.

Amanhã o dia vai terminar em Pádron (a terra dos pimentos) e vai ser o penúltimo dia de caminhada. Parece que amanhã vou apanhar, espero que poncho que comprei numa loja dos chineses em Pontevedra aguente com ela. 

Onde dormi: Albergue O Cruceiro, Caldas de Reis

O meu dia começou por volta das 7h00. Mais uma vez fui um dos últimos a sair do albergue. Mais uma vez comecei a caminhar de noite. Até me levantei bem, levando em conta a dor nas pernas que tinha ontem (acho que foi por ter sido de longe a noite em que dormi melhor). 

Esta etapa (de cerca de 23km) começou de forma majestosa. Como o albergue onde fiquei fica na zona sul de Pontevedra, junto à estação de comboios, o caminho levou-me a atravessar toda a zona histórica de Pontevedra (com particular destaque para a Igreja de la Peregrina), que é lindíssima a toda a hora, mas que com a luz do nascer do dia e com pouca gente na rua (em silêncio quase total), ganha uma graciosidade diferente. Passada Pontevedra, finalizada por uma ponte com vieiras (símbolo do caminho) nos seus arcos, entrei por caminhos rurais, durante 3 ou 4 quilômetros, encontrando muito menos peregrinos no caminho, em relação ao dia anterior (penso que seja por em Pontevedra existir uma derivação para um novo caminho (chamado de espiritual), que liga Pontevedra a Padrón, sendo os últimos 28km feitos de barco).

Depois desses primeiros quilômetros de beleza relativa, levando em conta o que já tinha visto no caminho. Voltei a entrar por caminhos mágicos, onde o verde impera e o sol não entra. Musgo por todo o lado, riachos a atravessarem o caminho, pequenas pontes que parecem ter sido construídas por duendes, enfim um verdadeiro parque de diversões para quem gosta de caminhar pela natureza. Nisto passaram-se cerca de 10km e estava na altura da primeira paragem técnica do dia (para o tradicional menu bocadillo e coca cola). Nem sei o nome da pequena povoação, mas como era a primeira do dia, estavam lá muitos peregrinos. Na saída da tasca, comecei a caminhada ao mesmo tempo que cerca de 10 peregrinos, entre os tradicionais “buen camino” alguém foi mais longe e perguntou quase a todos de onde eram e como se chamavam, funcionou como desbloqueador e seguimos juntos o resto do caminho até Caldas de Reis.

No grupo, tipo Senhor dos Anéis, todos éramos diferentes, eu em representação de Portugal, um casal muito simpático das Filipinas (mas vive há muito no Canada), umas irmãs da Hungria, um rapaz da Polónia, duas velhinhas alemãs e mãe e filho ingleses. Foi completamente diferente. O caminho tem destas coisas, momentos em que nos pede para seguirmos sozinhos e momentos para partilhar experiências. Após ter seguido sempre sozinho, este momento de partilha soube-me muito bem. Falei sobre Portugal com todo o orgulho que me caracteriza, ouvi histórias sobre os países de cada um e sobretudo partilhámos o que estava a ser o caminho para nós. Um queria fazer uma tatuagem de uma seta amarela do camino, as irmãs começaram o caminho em Tomar, caminham há mais de 15 dias, por isso tinham muitas histórias para contar (falaram muito bem do povo português, dos mais amigáveis que já conheceram…com muito orgulho ouvi), o casal filipino, deve ter ganho rugas na cara de tanto que se riu (acho que este foi o melhor momento do caminho para eles, pois acho que não estavam a gostar muito), as velhinhas alemãs seguiam com a rigidez alemã quase sem falar, e a mãe e filho, seguiam de uma forma estranha, o rapaz tinha cerca de 15 e acho que o caminho ainda não faz bem o estilo dele. Enfim entre conversas de circunstância, normais para quem se acabou de conhecer, e outras mais profundas, criou-se uma empatia, e esta partilha conseguida, com uma paisagem vinhateira como pano de fundo, levou a que caminho passasse com uma leveza diferente, foi mais rápido e menos doloroso. Quase que fiquei espantado ao ver Caldas de Reis, tipo “já está? já chegamos?”, ao contrário dos dias anteriores, em que levei sempre com uma “marreta” antes de chegar.

Provavelmente nunca mais nos voltaremos a fazer. Mas sempre que recordamos o camino (lembrança reforçada se não o voltarem a fazer), vamos lembrar deste dia, deste grupo e desta partilha. Coisas do caminho.

Amanhã o dia vai terminar em Pádron (a terra dos pimentos) e vai ser o penúltimo dia de caminhada. Parece que amanhã vou apanhar, espero que poncho que comprei numa loja dos chineses em Pontevedra aguente com ela. 

Onde dormi: Albergue O Cruceiro, Caldas de Reis

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